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Leishmaniose

Saiba mais sobre essa zoonose polêmica no Brasil e como proteger você e sua família

Leishmaniose

A leishmaniose é uma infecção causada por um protozoário chamado Leishmania spp. que pode causar a leishmaniose visceral pelo L. chagasi e a tegumentar pelo L. braziliensis no Brasil. Esses agentes vivem e se multiplicam no interior das células que fazem parte do sistema de defesa do indivíduo, chamadas macrófagos.

A leishmaniose visceral é uma antopozoonose ou seja, é transmissível ao homem e a outros animais. É considerada a sexta pandemia mais importante do mundo onde 12 milhões de pessoas em média já foram atingidas. Na América Latina, 12 países são atingidos, mas 90% dos casos são no Brasil. Em São Paulo, houve a primeira descrição em 1998 em Araçatuba, em 2007 foram registrados 79 municípios com o vetor, 57 municípios com transmissão canina, 48 municípios com casos humanos e 8,5% de letalidade. Acredita-se que a doença chegou às áreas urbanas e periurbanas devido ao desmatamento do meio rural, falta de controle do vetor e falta de saneamento básico em várias regiões.

Transmissão e Ciclo

FlebótomoPode ser transmitida através da picada do mosquito palha, por transfusão de sangue contaminado, transplacentária e pelo contato direto com sangue e secreções. Atualmente há estudos sobre a possível transmissão por carrapatos.

O vetor é a fêmea do mosquito Phlebotomus conhecido como mosquito palha ou birigui. O habitat natural do mosquito são as matas, ambiente rural, em galinheiros, canis, paióis, praças, jardins e centros urbanos. As larvas ficam em ambientes úmidos, ricos em matéria orgânica e com baixa luminosidade como o solo e nos lixões. A atividade do mosquito é maior durante o entardecer e à noite, ele voa em pequenos saltos e pousa com as asas entreabertas.

ciclo

Existem dois tipos de hospedeiros da doença o primário e secundário. No primário acontece a reprodução do parasita e o parasita pode persistir indefinidamente neste hospedeiro, nesse caso exemplos são o homem, roedores, gambás, tamanduás, tatus, raposas, primatas, preguiças, cão, cavalo, muar, vacas e cabras. O secundário pode transmitir a infecção também, mas não mantém a infecção se não conviver com um hospedeiro primário, nesse caso o gato é um exemplo de hospedeiro secundário.  

Sintomas

úlceras nas orelhasO período de incubação varia muito, é de 10 a 24 meses no homem e de 3 meses a anos no cão, por isso 50% dos animais infectados são assintomáticos, o que torna o controle mais difícil.

Na fase de multiplicação dos parasitas os sintomas gerais em cães são febre, aumento de linfonodos, aumento de fígado, aumento do baço, insuficiência renal, poliartrite, anemia, grande perda de peso, atrofia muscular e sangramento pelos orifícios naturais.

Os sintomas dermatológicos são queda de pêlo, descamação, nódulos e úlceras na pele e crescimento excessivo das unhas. O focinho e dígitos podem ficar com a pele grossa e pode ter alopecia ao redor dos olhos. Em ponte nasal observa-se despigmentação, ulceração e erosão. Pode haver infecções bacterianas secundárias.  

onicogrifoseAs manifestações cutâneas na leishmaniose visceral canina podem estar presentes entre 50 a 90% dos cães infectados, os achados dermatológicos podem ocorrer sem outros sinais aparentes da doença, mas qualquer cão com manifestações cutâneas da leishmaniose é considerado como portador de envolvimento visceral uma vez que os parasitas se disseminam por todo o organismo antes que haja desenvolvimento das lesões cutâneas.

Em humanos a doença é mais comum manifestar em crianças desnutridas e pessoas imunossuprimidas e manifesta-se através de úlceras cutâneas crônicas no ponto da picada na leishmaniose cutânea, na leishmaniose muco-cutânea atinge a mucosa do trato respiratório superior, tecidos moles e cartilagem naso-faríngea e na leishmaniose visceral atinge baço, fígado, linfonodos e pele podendo ser letal se não tratada rapidamente.

Diagnóstico

lesões descamativas em faceOs sinais sistêmicos e cutâneos não são específicos da doença, por isso não se pode dar um diagnóstico clínico.

Não há uma técnica 100% sensível e específica para diagnosticar a doença já que alguns testes variam com o grau de parasitismo. Quanto maior a sensibilidades dos testes são diagnosticado mais precisamente os animais doentes e quanto mais específicos excluirá corretamente os animais não doentes. 

Deverão ser feito vários testes, como hemograma, métodos parasitológicos, sorológicos e moleculares.  

 Os testes parasitológicos por punção tem alta especificidade, pois se achar o parasita, o animal testado é com certeza doente ou hospedeiro, mas os negativos podem ser doentes, pois poderá não achar o parasita no teste. O teste parasitológico por imunofluorescência direta ou imunohistoquímica tem especificidade e sensibilidade elevada, porém algumas drogas podem diminuir a carga parasitária e o teste é mais caro.

nódulos em ponte nasalO teste mais usado é o sorológico que pesquisa anticorpos contra os parasitas no animal, mesmo que a soroconversão pode levar de 1 a 22 meses e alguns cães nunca a fazem. Esse teste pode ter falsos positivos se tiver reação cruzada com outras doenças e anticorpos maternos em animais jovens e falsos negativos em animais assintomáticos em período pré-patente. Os testes sorológicos não diferenciam a leishmaniose tegumentar da visceral (e no Brasil não é indicada a eutanásia de cães com leishmaniose tegumentar). O ideal é quando der positivo o teste sorológico por ELISA fazer um teste de imunofluorescência indireta para confirmar. Por essas desvantagens citadas um teste sorológico somente não deve ser encarado como diagnóstico.

Tratamento

O tratamento da leishmaniose canina é um dos grandes assuntos polêmicos que rondam a doença no Brasil já que o tratamento com medicamentos humanos é proibido, pois se alega que há risco de resistência do parasita às medicações disponíveis para tratamento ao homem, os fármacos disponíveis não garantem a redução do risco de transmissão do parasita ao mosquito e não há medicamentos veterinários comercializados no Brasil para tratamento da leishmaniose.

Cães infectados e soro positivos ainda são eutanasiados em massa como forma de prevenção, mesmo que esse método não apresentou eficaz controle sobre o vetor, nem diminuiu os casos nas regiões endêmicas. Além de que, a sorologia usada nos testes pelo ministério da saúde não é confiável e o Brasil é o único país do mundo que indica a eutanásia exclusivamente em cães infectados.

Recentemente foi movida uma ação civil pública por uma organização protetora de animais no Mato Grosso do Sul, em que a mesma conseguiu autorização para o tratamento de cães com leishmaniose. E outro caso foi autorizado à importação de medicação veterinária para tratamento da leishmaniose.

Os animais tratados devem ser mantidos sobre rígidos controles para não ter contato com o vetor.

Controle

vacinaçãoA medida mais eficaz para diminuir a incidência da doença seria com certeza a do controle do vetor.  Em cães podem-se usar repelentes dos insetos que se encontram no mercado em forma de colar e pipetas. Hoje há vacinas no mercado que devem ser aplicadas em todos os animais principalmente nas regiões endêmicas. No ambiente algumas medidas podem ser tomadas como o uso de inseticidas ambientais, plantas repelentes podem ser plantadas (citronela e azadiractina), deve-se manter os cães dentro de casa ou canis telados principalmente nos horários de atividade do mosquito. Evitar a criação de animais que atraem o mosquito como porcos, galinhas e aves. 

 Como a urbanização da doença é um fenômeno recente, são escassas as informações sobre a epidemiologia e as relações entre os componentes da cadeia de transmissão nesse novo cenário. Porém, sabe-se que medidas voltadas ao meio ambiente e ao peridomicílio com o objetivo de diminuir a densidade populacional de vetores, retirar possíveis fontes de alimento ou de criadouros destes, bem como controlar a invasão das áreas urbanas por animais silvestres em busca de alimentos, podem ser adotadas pela comunidade, diminuindo o elo existente entre os ciclos urbanos e silvestres. 

Patrícia Maíra Paulino M.V. Patrícia Maíra Paulino • CRMV-SP 27889
Médica Veterinária • Pós-Graduada em Dermatologia Veterinária

Atualmente atende exclusivamente Dermatologia de pequenos animais em hospitais e clínicas veterinárias.

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